FETAPE - FEDERAÇÃO DOS TRABALHADORES RURAIS AGRICULTORES E AGRICULTORAS FAMILIARES DO ESTADO DE PERNAMBUCO

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Seu Preá - Presente!

02/03/2018



Faleceu, na noite de ontem, vítima de um câncer, um dos maiores líderes do Movimento Sindical Rural na luta pela conquista do Reassentamento de Itaparica e na organização sindical das décadas de 70,80, no Submédio São Francisco, o Sr. José Soares Novaes, popularmente conhecido como Zé Preá. Ele também era o representante da região na Academia Sindical Fetape.

O corpo está sendo velado em sua residência, na Agrovila 03, N° 08, Projeto Brígida, em Orocó. Às 10 horas, um cortejo seguirá até a Sede da Câmara Municipal, onde haverá uma Sessão Solene, seguida de Homenagens Póstumas. Às 13h, o corpo voltará a residência da família, onde haverá um culto e, às 18h, um novo cortejo seguirá até o cemitério do Projeto Brígida. onde será feito o sepultamento.

Todo o Movimento Sindical está unido em orações, neste momento de tristeza, e no apoio à família de seu Preá e a todos e todas que integram a família sindical no Pólo Submédio São Francisco.

Um pouco da História de Seu Zé Preá foi contada, por ele mesmo, no livro "O Campo - meu lugar de viver, ver e transformar", lançado pela Academia Sindical Fetape no 9º Congresso Estadual dos Trabalhadores e Trabalhadoras Rurais, em 2014. Saiba um pouco mais sobre essa importante liderança.

Barragens marcam a história de luta de “Preá”

Eu me chamo José Soares Novais, mais conhecido por Zé Preá. Nasci no dia 28 de fevereiro, de 1945, no município de Itacuruba. Eu só fiz nascer na cidade, mas a vida inteira, eu morei na área rural, na Fazenda Riacho de Itacuruba, localizada a 2 km da área urbana. Minha mãe se chama Pedrina de Sá Novaes e meu pai João Soares Filho.

Comecei a trabalhar na roça, a cuidar de bicho, aos sete anos de idade. Acordava umas quatro horas da manhã, começava a trabalhar, parava um instante para almoçar, e voltava ao trabalho,onde ficava até às cinco horas da tarde. Ajudei meu pai, que era vaqueiro, a criar os meus onze irmãos. Eu frequentava a escola seis meses e, nos outros seis, eu parava de estudar para trabalhar na roça. Cursei até a 3ª série.

Ouvi falar, pela primeira vez, sobre o Sindicato quando surgiu a discussão sobre a aposentadoria do trabalhador rural. Me disseram que, para conseguir esse benefício, era importante eu me associar. Então, em 1972, me associei.

Na década de 70, começou a luta em defesa das famílias vítimas da construção da Barragem de Itaparica. O Sindicato começou a fazer várias reuniões. Dessa forma, iniciei a minha luta no Movimento Sindical, incentivado pelo frei Afonso.

Aos poucos, participando das concentrações que aconteciam Na década de 70, começou a luta em defesa das famílias vítimas da construção da Barragem de Itaparica. O Sindicato começou a fazer várias reuniões. Dessa forma, iniciei a minha luta no Movimento Sindical, incentivado pelo frei Afonso.
as lutas, os problemas políticos e as bandeiras do Sindicato. Nessa época, a luta era para garantir o reassentamento das famílias atingidas pelas construções das barragens no Brasil. Uma coisa que foi iniciada pelo nosso Movimento.

No começo, foi muito difícil, pois era a época da Ditadura Militar. Os patrões, que eram aliados do regime, faziam de tudo para nos impedir de lutar pelo reassentamento das famílias. Muitos políticos e a parte conservadora da Igreja também eram contra a nossa luta. Muitas vezes, nos concentramos no prédio
da Companhia Hidro Elétrica do São Francisco, a Chesf.

A estratégia para mobilizar o pessoal do Sindicato era marcar as reuniões no dia em que eles vinham para a feira. Antes da volta para as comunidades, nos reuníamos e organizávamos as atividades. No dia 1º de dezembro de 1986, paramos a construção da Barragem de Itaparica. Nessa batalha, tivemos um grande apoio da Fetape, Contag, Igreja Católica e de algumas organizações internacionais.

Dessa maneira, conseguimos, por exemplo, fazer com que 65% das famílias atingidas pela construção da obra fossem reassentadas. As cinco mil e quinhentas famílias formadas por trabalhadores rurais, antes, trabalhavam como meeiras, rendeiras e mais da metade era praticamente sem terra, pois o pedaço de chão que tinham, muitas vezes, não dava nem para plantar.Hoje, cada uma tem um lote. Nós também reivindicávamos o pagamento de indenizações para essas famílias.

Creio que a minha contribuição, como liderança se deu na mobilização das famílias, estimulando os grupos a lutarem pelos seus direitos. Nesse trabalho, também contamos com o apoio de representantes da Diocese de Juazeiro da Bahia. Em suas falas, eles sempre citavam o exemplo da luta das famílias na Barragem de Sobradinho.

O Polo Sindical teve uma importância grande nessa luta. Essa instância nunca mediu esforços para articular a base, as organizações parceiras.Sem o trabalho realizado pelo
Polo Sindical e os apoios da Fetape e da Contag, não existiria o reassentamento de Itaparica. Certamente, essas famílias estariam nas periferias da cidade e não possuem hoje.

Outro momento marcante foi quando fechamos a Nova Itacuruba, porque os patrões perderam o financiamento dos bancos, no momento em que estavam indenizando as famílias. Com isso, muitas pessoas ficaram sem receber indenização. Paramos Itacuruba, com o objetivo de organizar cestas básicas, para fazer a distribuição junto a essas famílias.

Atualmente, as lutas estão mais fáceis do que antes. No passado, só tínhamos governos contrários às nossas lutas. Nos dias de hoje, temos o respeito dos governantes.

A sustentabilidade sempre foi um grande desafio, pois nós tínhamos que fazer a militância, mas também lutar pela sobrevivência.

Um caminho no qual eu acredito para fazer o Movimento crescer ainda mais são os jovens. O futuro do país é a juventude. Por isso, acho que o Movimento precisa investir ainda mais nas lideranças jovens. Caso contrário, daqui a pouco, a gente vai ver o Sindicato com quatro ou cinco membros. Umas lideranças morrem, outras vão para a faculdade e nós vamos ficar sem ninguém.

Se lembrarmos como Movimento era, há 50 anos, podemos ver que, hoje, ele está bem diferente. Acho que é necessário aprendermos a ouvir mais. Quase sempre, a gente fala demais e ouve pouco.

Tudo que eu sou e que conquistei devo ao Movimento. Por isso, ainda hoje, estou disponível 24 horas para essa luta. E estarei disponível até o dia em que eu partir desse mundo.
José Soares Novais (Zé Preá)

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