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SOS Corpo impulsiona debate sobre memória, feminismo popular e democracia em Pernambuco

Recuperar memórias, fortalecer a organização coletiva e reafirmar o feminismo popular como força política na construção democrática estiveram no centro do seminário “Memórias do Feminismo Popular em Pernambuco”, uma ação organizada pelo SOS Corpo – Instituto Feminista para a Democracia, que reuniu, nos dias 27 e 28 de março de 2026, mais de 100 mulheres de movimentos e organizações feministas em torno de suas trajetórias de luta e resistência.

A atividade integra um processo de pesquisa-ação iniciado no segundo semestre de 2025 pelo próprio SOS Corpo, que articula sete organizações feministas no estado: as Mulheres da Fetape, as Mulheres da CUT, o Movimento de Mulheres Trabalhadoras Rurais do Nordeste (MMTR-NE), a Marcha Mundial das Mulheres (MMM), o Fórum de Mulheres de Pernambuco (FMPE), a Rede de Mulheres Negras de Pernambuco (RMNPE) e a Rede Nacional de Feministas Antiproibicionistas (Renfa). Ao longo dos dois dias, a programação combinou debates, momentos lúdicos e exposições com elementos visuais da trajetória dos movimentos, como camisetas, banners e fotografias, refletindo a diversidade e a potência do feminismo popular em Pernambuco.

A iniciativa impulsiona a construção coletiva das memórias do movimento feminista em Pernambuco nas últimas quatro décadas e fortalece o debate entre organizações sobre estratégias de enfrentamento aos desafios atuais e futuros. O seminário reafirmou o papel da memória como ferramenta política e a centralidade da organização das mulheres na construção das lutas sociais no estado e no país.

Este texto reúne algumas das reflexões apresentadas ao longo do seminário, a partir das falas de mulheres feministas e ativistas que, desde seus diferentes campos de atuação, trajetórias e experiências de luta, contribuem para a construção dos feminismos populares em Pernambuco.

Memória, invisibilidade e raízes da resistência

A ativista e fundadora da Rede de Mulheres de Terreiro, Vera Baroni, situou o feminismo no campo das disputas políticas e afirmou a presença histórica das mulheres nas lutas sociais — dos quilombos aos dias atuais —, ainda que muitas vezes invisibilizadas. Essa presença sustenta processos de resistência e garante a continuidade de saberes, culturas e formas de organização coletiva.

Ao dialogar com o pensamento feminista negro, com referências como Lélia Gonzalez, destacou o protagonismo das mulheres negras na preservação da memória, na construção da identidade e no enfrentamento ao racismo.

Vera Baroni também evidenciou o papel histórico do SOS Corpo na construção de práticas políticas inclusivas, especialmente na articulação com trabalhadoras domésticas e mulheres das periferias, reafirmando o compromisso com aquelas que historicamente foram excluídas dos espaços de poder.

A fala enfrentou ainda os estigmas que marcaram o feminismo ao longo do tempo e reforçou como a organização das mulheres foi fundamental para afirmar o feminismo como um movimento legítimo de direitos.

Memória como disputa política e construção histórica

Uma das fundadoras do SOS Corpo e militante feminista da Articulação de Mulheres Brasileiras (AMB), Betânia Ávila evidenciou que o feminismo rompe com uma negação histórica profunda: o não reconhecimento das mulheres como sujeitas da história.

Antes disso, suas experiências não eram registradas nem consideradas parte da memória coletiva. O que existia era uma memória dispersa, sem nomes, sem datas e sem reconhecimento — uma memória apagada. Essa ausência não expressa falta de ação, mas exclusão do poder e do reconhecimento, revelando a negação do lugar das mulheres como sujeitos históricos e políticos. Resgatar a memória se afirma, assim, como um ato político e revolucionário: tornar visível o que foi apagado exige reconfigurar a própria história.

A reflexão aponta ainda que a história das mulheres não está separada da história do mundo, mas que foi necessário construir uma narrativa própria para garantir reconhecimento e presença nos processos de transformação social. Nesse caminho, não basta ocupar espaços — é preciso transformar as bases que estruturam esses espaços.

Betânia Ávila, ao tratar da memória como processo, destacou seu caráter situado: cada narrativa carrega uma perspectiva, e reconhecer essa diversidade é parte fundamental da construção histórica. Registrar o presente e recuperar o passado se colocam como tarefas permanentes, conectando memória, ação política e construção de futuro.

Trajetórias, contradições e construção do feminismo no campo

A professora e representante da Marcha Mundial das Mulheres, Andrea Butto destacou que compreender o feminismo exige relacionar sua trajetória aos contextos históricos e às diferentes formas de resistência construídas ao longo do tempo.

As mulheres sempre estiveram nas lutas — na manutenção da vida, na transformação social e na conquista de direitos —, mesmo antes da formalização dos movimentos organizados. No campo, a luta pela terra aparece como eixo estruturante dos movimentos sociais, com participação central das mulheres, ainda que inicialmente sem reconhecimento como pauta feminista.

A construção do feminismo rural se afirma na luta por reconhecimento — o reconhecimento das mulheres como trabalhadoras rurais, com direito à terra, à documentação, à previdência e à identidade profissional.

As diferentes realidades regionais marcam essas trajetórias, com destaque para o Nordeste, questões como seca, água e acesso à terra impulsionaram forte protagonismo das mulheres. A participação política também se consolida nesse processo, tanto nos sindicatos quanto em espaços institucionais, mesmo diante de limitações estruturais nos anos 1980.

Outro elemento fundamental é a relação com a Teologia da Libertação e as comunidades eclesiais de base, que, em muitos contextos, abriram caminhos para a participação política das mulheres e contribuíram para a formação de lideranças.

Essa trajetória revela contradições, alianças e disputas que ajudam a compreender as diferenças entre feminismo urbano e rural, além dos desafios históricos e atuais do movimento.

Sindicalismo rural, feminismo e luta por reconhecimento

A diretora de Política para Mulheres da Fetape, Adriana do Nascimento trouxe a experiência das mulheres no sindicalismo rural como uma história marcada por presença e invisibilidade ao longo de mais de 60 anos.

As mulheres sempre estiveram desde a origem do movimento sindical, sustentando processos de luta e organização, ainda que sem o devido reconhecimento.

A relação entre sindicalismo rural e feminismo se constrói ao longo do tempo. As práticas já expressavam um fazer feminista no cotidiano, mesmo antes de serem nomeadas como tal. Esse feminismo vivido na prática enfrentou — e ainda enfrenta — resistências dentro das estruturas sindicais, inclusive em espaços identificados como progressistas.

A luta por direitos básicos, como a filiação sindical, só foi conquistada em 1985. A partir daí, avanços como cotas, participação mínima e paridade resultam de décadas de mobilização e enfrentamento.

A Marcha das Margaridas surge como marco dessa trajetória, ampliando a visibilidade e a força política das mulheres rurais por meio de processos coletivos de base.

A reflexão também evidencia as desigualdades internas, especialmente em relação às mulheres negras, e a necessidade de enfrentamento dessas questões dentro do próprio movimento. O feminismo popular se afirma como um campo que acolhe essas experiências, por ser coletivo, territorializado e construído a partir da vida concreta das mulheres.

Persistem desafios estruturais, como a violência e o assédio, inclusive dentro das organizações, exigindo enfrentamento permanente. Mesmo diante de avanços, a luta segue em disputa. É a força das mulheres que sustenta o mundo — e é a partir dessa força que se constrói, cotidianamente, um projeto de sociedade mais justa e igualitária.

Imagens: Shaynna Pidori

Fonte: Shaynna Pidori

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