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Organização e microcrédito rural fortalecem a agricultura familiar e a produção de alimentos no Sertão pernambucano
Por mais de 30 anos, Maria José Martins dos Santos, 45 anos, trabalhou como diarista em propriedades rurais de Serra Talhada. Saía de casa às 7h da manhã para colher feijão, tomate, pimentão e outras culturas da região. Ao final do dia, recebia cerca de R$ 50 pelo trabalho.
Video produzido no Sítio da Família de Maria José dos Santos.
Moradora do distrito de Bernardo Vieira, Maria José mantinha apenas pequenos canteiros destinados ao consumo da família. A situação começou a mudar com a implantação de uma cisterna de segunda água, por meio de ações desenvolvidas pelo Sindicato dos Trabalhadores Rurais, Agricultores e Agricultoras Familiares de Serra Talhada em parceria com a Articulação Semiárido Brasileiro (ASA).
Além da estrutura de armazenamento de água, o projeto disponibilizou recursos para que as famílias investissem em atividades produtivas. Maria José decidiu ampliar a horta que já cultivava na propriedade.

Na propriedade da família, no distrito de Bernardo Vieira, zona rural de Serra Talhada, Maria José produz hortaliças agroecológicas.
“Outras famílias escolheram criar galinhas ou investir em gado. Eu escolhi a horta porque já tinha alguns canteiros. Meu filho vendia o que a gente não consumia e ajudava nas despesas”, conta.
Com os recursos, adquiriu sombrite e materiais para ampliar a produção. O principal obstáculo, porém, continuava sendo o custo da energia elétrica utilizada para bombear a água do poço.
A solução veio por meio de uma linha de microcrédito do Banco do Nordeste. Com um financiamento de R$ 12 mil, instalou um sistema de energia solar que atende tanto a residência quanto o poço utilizado na produção. A conta de energia, que chegava a R$ 280 por mês, caiu para cerca de R$ 90.
Com a redução dos custos, ampliou a produção de hortaliças como coentro, alface e cebolinha, comercializadas na região. A produção é conduzida sem o uso de agrotóxicos.
“Hoje eu não quero mais trabalhar para ninguém. É uma liberdade. Mas também exige dedicação. Tem que acompanhar diariamente, observar se apareceu alguma praga, cuidar das plantas”, relata.
A história de Maria José reúne elementos presentes na trajetória de muitas famílias agricultoras do Sertão. O acesso ao crédito, porém, começa antes da assinatura do contrato.
Organização que antece o crédito
Associada ao sindicato desde os 16 anos, Maria José participa das assembleias e acompanha orientações sobre direitos, programas governamentais e políticas públicas voltadas para a agricultura familiar. Há mais de cinco décadas, o Sindicato dos Trabalhadores Rurais, Agricultores e Agricultoras Familiares de Serra Talhada atua na organização da categoria, promovendo assembleias mensais, orientações sobre documentação e apoio ao acesso às políticas públicas.
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Assembleia mensal do Sindicato de Serra Talhada, realizada na primeira segunda-feira de cada mês.
“A gente não pode pensar em agricultura sem pensar em comercialização. Para comercializar, primeiro é preciso organizar a produção. É organizar o agricultor e a agricultora, manter o Cadastro da Agricultura Familiar atualizado e fortalecer as associações”, afirma a presidenta do sindicato, Iara Lima.
Para a Federação dos Trabalhadores Rurais Agricultores e Agricultoras Familiares do Estado de Pernambuco (Fetape), que reúne 172 sindicatos em todo o estado, a ampliação do acesso ao crédito rural faz parte de uma pauta histórica do movimento sindical. Segundo a presidenta da entidade, Cícera Nunes, a luta começou pelo direito à terra, à aposentadoria, ao reconhecimento das mulheres como trabalhadoras rurais e ao acesso à documentação. Hoje, além da defesa dessas conquistas, o desafio é ampliar políticas públicas que garantam condições para produzir, comercializar e permanecer no campo.
“Uma das reivindicações históricas do movimento sindical foi a criação do Programa Nacional de Fortalecimento da Agricultura Familiar (Pronaf). Precisávamos de linhas de financiamento compatíveis com a realidade da agricultura familiar, que não exigissem garantias impossíveis para quem vive da produção no campo. O Pronaf contribuiu para ampliar o acesso ao crédito, fortalecer a produção, reduzir a pobreza e promover um desenvolvimento mais sustentável”, afirma.
O microcrédito que chega às comunidades
O Pronaf foi criado em 1995 pelo Governo Federal e se tornou a principal política pública de crédito para a agricultura familiar brasileira. No Nordeste, seu principal agente financeiro é o Banco do Nordeste (BNB), por meio do programa de microfinanças rurais Agroamigo.
Criado em 2005, o Agroamigo já contratou mais de 748 mil operações de crédito, movimentando R$ 9,51 bilhões. Desse total, 53,84% das operações foram realizadas por mulheres agricultoras. Em Pernambuco, foram contratadas 87.393 operações, que somam mais de R$ 1,03 bilhão em financiamentos.
Há dois anos e quatro meses, a região passou a contar com um escritório próprio do Agroamigo em Serra Talhada. Antes, a gestão das operações era concentrada em Recife. A descentralização ampliou a presença das equipes no Sertão do Pajeú, fortalecendo o acompanhamento das atividades financiadas. Atualmente, o escritório atende 37 municípios e tem como meta aplicar R$ 474 milhões em crédito rural ao longo deste ano.

Presidenta da Fetape, Cícera Nunes, e gerente estadual do Agroamigo, Maria Aparecida dos Santos, em encontro com a equipe do escritório do programa em Serra Talhada.
Filha de agricultores familiares, a gerente estadual do Agroamigo, Maria Aparecida dos Santos, afirma que a metodologia do programa busca aproximar a instituição financeira da realidade das comunidades rurais e apoiar a realização dos sonhos dos agricultores. Em vez de concentrar o atendimento apenas nas agências, os agentes de microcrédito visitam as propriedades, acompanham os empreendimentos e orientam os agricultores durante todo o processo.
Segundo ela, esse modelo ajudou a romper a percepção de que o banco era destinado apenas para as pessoas de maior poder aquisitivo. A atuação conjunta com sindicatos, associações e entidades como a Fetape também facilita o acesso ao crédito, ao apoiar a organização da documentação, identificar famílias aptas aos financiamentos e aproximar os agricultores das políticas públicas.
Maria Aparecida lembra que cresceu no Semiárido em um período marcado pela escassez de oportunidades e pela migração de famílias em busca de melhores condições de vida. Para ela, o cenário atual é resultado da combinação entre políticas públicas, acesso ao crédito, assistência técnica, tecnologias de convivência com o Semiárido e organização social.
A atuação do escritório do Agroamigo em Serra Talhada tem refletido em resultados positivos para o programa no Sertão. Desde a abertura da unidade, a carteira de microcrédito rural apresentou uma redução de 4,77 pontos percentuais na inadimplência, evidenciando o impacto do acompanhamento realizado junto aos agricultores e agricultoras familiares.
Da produção ao mercado
No Sítio Barreiros, a cerca de 50 quilômetros da sede de Serra Talhada, o agricultor familiar Genival Bezerra de Lucena, 51 anos, cultiva milho, feijão, fava, abóbora e hortaliças. Também cria gado leiteiro, cuja produção abastece o Programa de Aquisição de Leite (PAA Leite), a Cooperativa dos Produtores Rurais de Luanda e a Feira Agroecológica de Serra Talhada (FAST), onde comercializa queijo coalho, queijo de manteiga, manteiga de garrafa e coalhada.
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Genival Bezerra de Lucena comercializa queijos, manteiga de garrafa e outros derivados do leite na Feira Agroecológica de Serra Talhada (FAST), realizada aos sábados.
Ao longo dos anos, acessou diferentes operações de crédito rural, investindo principalmente na aquisição de animais e na recuperação de pastagens.
“O papel do movimento sindical na ampliação do acesso ao crédito rural e às políticas de financiamento do Banco do Nordeste é resultado de uma trajetória de luta social”, afirma.
Um estudo publicado pelo Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (Ipea), em 2025, aponta que o Agroamigo tem produzido resultados positivos na promoção do crédito rural para a agricultura familiar. Segundo a pesquisa, as evidências indicam melhorias no bem-estar das famílias beneficiadas, impulsionadas pelo aumento da produção, da renda e da produção destinada ao autoconsumo.
O microcrédito que realiza novos projetos
Se a história de Genival demonstra a consolidação da produção e da comercialização, a trajetória de Carlos Inácio de Oliveira, 74 anos, e Lúcia Regina Silva de Oliveira, 77 anos, mostra como o crédito rural também pode impulsionar novos projetos de vida.
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O casal Carlos Inácio e Lúcia Regina em frente ao parreiral, que entra em produção a cada seis meses.
Depois de anos vivendo no Sudeste, Carlos retornou ao Sertão. A decisão de investir na propriedade foi incentivada pela esposa, capixaba, que enxergou na atividade rural a oportunidade de concretizar um antigo sonho da família.
Com apoio de programas públicos, conseguiram as primeiras mudas de uva. O passo seguinte foi buscar financiamento para perfurar um poço e implantar um sistema de irrigação.
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Um sonho de infância de Lúcia Regina Silva de Oliveira ganhou forma no Semiárido pernambucano com a implantação do parreiral da família.
“Esse poço tem nome. O nome dele é BNB”, conta Carlos.
Com recursos do Agroamigo, o casal implantou uma área com aproximadamente 500 pés de uva. A produção é colhida a cada seis meses, comercializada na Feira Agroecológica de Serra Talhada e já gera renda para a família. Os próximos projetos incluem o cultivo de algodão e palma.
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Carlos e Lúcia adotam práticas agroecológicas, como o uso da calda de alho no manejo das videiras, sem recorrer a agrotóxicos ou fertilizantes químicos.
Outro diferencial do programa do Banco do Nordeste é o incentivo concedido aos agricultores e agricultoras que cumprem as condições estabelecidas no financiamento. Em algumas operações, é possível obter um bônus de adimplência de até 40% sobre o valor financiado, reduzindo significativamente o montante a ser pago e estimulando tanto o investimento na produção quanto o pagamento em dia das parcelas.
Produção de alimentos que fortalece a soberania alimentar no Semiárido
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Na Feira Agroecológica de Serra Talhada, Genival comercializa parte da produção da agricultura familiar.
Hoje, Maria José produz hortaliças agroecológicas. Genival comercializa leite, derivados e alimentos agroecológicos na Feira Agroecológica de Serra Talhada (FAST). Carlos e Lúcia cultivam uvas, também comercializam sua produção na feira e planejam ampliar a propriedade com o cultivo de algodão e palma. Histórias diferentes, conectadas pela articulação entre agricultores e agricultoras familiares, sindicato, cooperativas, organizações sociais, políticas públicas e crédito rural. Dessa atuação conjunta, alimentos produzidos pela agricultura familiar, com base em práticas agroecológicas, chegam às feiras, aos mercados e aos programas públicos de abastecimento, contribuindo para a soberania alimentar, a geração de renda e o desenvolvimento do Sertão pernambucano.
Reportagem e Fotografias: Shaynna Pidori
Edição vídeo: John Lira