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Encontro Regional do Sertão reuniu mais de cem participantes em Salgueiro
Agroecologia, quintais produtivos, organização sindical, comunicação e participação política estiveram no centro dos debates do último Encontro Regional do Projeto Fortalecer II, promovido pela Fetape no dia 7 de julho, no Hotel Imperador, em Salgueiro.

O evento reuniu 106 participantes entre dirigentes da Federação dos polos sindicais da Mata e do Sertão, representantes de sindicatos e associações, agricultores e agricultoras familiares e o deputado estadual Doriel Barros (PT), encerrando a etapa regional do projeto.

A programação teve início com um minuto de silêncio em homenagem aos militantes do movimento sindical recentemente falecidos. A presidenta da Fetape, Cícera Nunes, prestou homenagem a José Neto, de Petrolina, e a Izabel Magalhães Costa Barboza, de Mirandiba, destacando a trajetória de ambos na construção do movimento sindical.

Sobre Zé Neto, Cícera lembrou que o conheceu na luta, especialmente na organização das trabalhadoras e dos trabalhadores assalariados rurais.
Ao falar de Izabel, a presidenta destacou que sua morte ocorreu enquanto ela exercia uma atividade que simbolizava sua própria militância: a comercialização da produção da agricultura familiar. Izabel viajava com familiares para vender os produtos produzidos pela família, vestindo a camisa da Marcha das Margaridas. Na despedida, a família escolheu sepultá-la com a camisa da Fetape.
“Izabel representa as mulheres, os jovens e os homens que continuarão construindo o futuro da agricultura familiar. Representa a força da organização sindical e o compromisso com os nossos municípios.”
Direção da Fetape reforça continuidade do Projeto Fortalecer

O diretor de Política Agrícola da Fetape, Antônio Neto, avaliou positivamente o andamento do projeto e afirmou que a expectativa é garantir sua continuidade. “Já estamos quase nas últimas etapas do projeto e queremos dar continuidade ao Projeto Fortalecer, realizando um Fortalecer III.”

A diretora de Política Agrária, Rosário França, destacou a importância da iniciativa para aproximar o movimento sindical de sua base. “Esse projeto é muito importante para nós, do movimento sindical. Conseguimos chegar até a base, junto com as associações e os sindicatos. Isso é trabalho feito junto com o nosso povo.”
Rosário avaliou que o Projeto Fortalecer II evidenciou avanços importantes na produção da agricultura familiar, mas também revelou desafios permanentes, especialmente relacionados à comercialização da produção. Segundo ela, esse cenário reforça a necessidade de reorganização constante das organizações sociais para ampliar a capacidade produtiva, consolidar a agroecologia e fortalecer a atuação da agricultura familiar em seus territórios.

A secretária de saúde da CUT Brasil, a sindicalista e vereadora de São José do Belmonte, Josivânia Ribeiro, afirmou que o movimento sindical construiu importantes conquistas ao longo de mais de seis décadas, mas que os desafios atuais também exigem a ocupação dos espaços institucionais de poder.
“Aprendemos que não basta fortalecer a agricultura familiar apenas pela organização sindical. Também precisamos ocupar os espaços de poder. Nós, que somos lideranças das associações, das comunidades, das igrejas, dos sindicatos e da Fetape, precisamos assumir também a tarefa de discutir política, participar dos partidos e disputar esses espaços”, afirmou Josivânia.
O diretor de Política para a Terceira Idade da Fetape, Adimilson Nunes, destacou que o Projeto Fortalecer valoriza a diversidade da produção da agricultura familiar, reconhecendo não apenas a produção de alimentos, mas também a produção cultural, artesanal e outras formas de geração de renda.

Ele também chamou atenção para os desafios enfrentados atualmente pelo movimento sindical. Segundo Adimilson, o fortalecimento do trabalho de base permanece como principal estratégia para manter os sindicatos organizados e capazes de defender políticas públicas voltadas à agricultura familiar, fortalecendo associações, grupos produtivos, comunidades quilombolas, povos indígenas e demais organizações sociais dos territórios.

Roda de conversa destaca experiências em agroecologia e organização sindical
Um dos momentos centrais do encontro foi a roda de conversa, que reuniu experiências de agricultores/as, dirigentes e representantes de instituições parceiras sobre agroecologia, organização social e fortalecimento da agricultura familiar.
Da superação pessoal ao protagonismo na produção agroecológica

A vereadora e agricultora familiar agroecológica, Lucineide Cordeiro emocionou os participantes ao compartilhar sua trajetória de vida antes de apresentar sua experiência na produção e comercialização do algodão agroecológico.
Filha, neta, bisneta e tataraneta de agricultores familiares, ela contou que decidiu disputar uma vaga na Câmara de Vereadores sem tradição política ou estrutura financeira. Relatou ter enfrentado preconceitos, humilhações e descrédito por não possuir formação universitária. Também lembrou que foi beneficiária do Bolsa Família e conhece de perto as dificuldades enfrentadas pelas famílias do campo, reforçando que a agricultura familiar precisa ser fortalecida para garantir renda, dignidade e permanência das famílias no meio rural.
Segundo Lucineide, foi durante um dos momentos mais difíceis de sua vida que conheceu o Projeto Algodão em Consórcios Agroecológicos.
Mesmo desacreditada por parte da comunidade, ingressou no projeto em 2018. Ao receber o primeiro pagamento pela venda do algodão, afirmou que compreendeu o significado da autonomia econômica proporcionada pela produção.
Ela explicou que passou a cultivar algodão em sistema de consórcio agroecológico, juntamente com gergelim, milho, feijão, jerimum e outras culturas, mantendo também o plantio de girassol para favorecer a presença de abelhas e a polinização.
Lucineide destacou ainda o fortalecimento promovido pela Associação Agroecológica do Pajeú (Asap), especialmente por meio da criação do Grupo de Trabalho de Gênero, que passou a reconhecer e valorizar o protagonismo das mulheres na produção.
Outro aspecto ressaltado foi o processo de certificação participativa da produção orgânica, baseado em visitas entre agricultores, avaliações coletivas e construção de confiança entre os grupos envolvidos.
Projeto Dom Helder destaca avanço da agroecologia

Representando o Projeto Dom Helder Câmara, Paulo Pedro avaliou que a agroecologia passou por um importante processo de transformação dentro do movimento sindical.
Segundo ele, há cerca de duas ou três décadas o tema ainda era pouco compreendido, enquanto atualmente se tornou uma bandeira política e uma estratégia concreta para fortalecer a agricultura familiar.
Paulo destacou o protagonismo da Fetape nesse processo e afirmou que as experiências apresentadas durante o encontro demonstram que a agroecologia está presente de forma concreta nos territórios. “Os colegiados territoriais exercem papel estratégico na articulação entre movimentos sociais, organizações da sociedade civil e órgãos públicos para construir políticas públicas voltadas ao desenvolvimento dos territórios rurais”, destacou.
Quintais produtivos fortalecem autonomia das mulheres
A diretora de Política para Mulheres da Fetape, Adriana do Nascimento, destacou que os quintais produtivos fazem parte da história da agricultura familiar há milhares de anos e representam uma prática ancestral de convivência com a natureza.

Segundo ela, muito antes da agroecologia receber esse nome, os povos do campo já produziam respeitando os ciclos naturais, cultivando alimentos, plantas medicinais, hortaliças, frutas e criando pequenos animais nos arredores das casas.
Adriana ressaltou que os quintais produtivos sempre tiveram forte protagonismo das mulheres, responsáveis historicamente pelo cuidado com esses espaços e pela produção destinada tanto ao consumo das famílias quanto à geração de renda.
Ela afirmou que os quintais produtivos cumprem papel fundamental na promoção da soberania e da segurança alimentar, na preservação dos conhecimentos tradicionais e no fortalecimento da autonomia econômica das mulheres.
A dirigente lembrou que, embora diversas organizações já desenvolvessem iniciativas semelhantes, foi a partir da Marcha das Margaridas de 2023 que essa pauta se transformou em política pública nacional, com a criação do Programa Nacional de Quintais Produtivos.
Segundo Adriana, o movimento sindical reivindicava inicialmente uma política pública permanente, e não apenas um projeto pontual. Como resultado da mobilização, foi criado o programa com previsão de atender 96 mil mulheres agricultoras em todo o país.
Ela também destacou o Fomento Rural como uma importante política complementar para fortalecer os quintais produtivos. O benefício, atualmente de R$ 4.600 e sem necessidade de devolução, possibilita investimentos diretos na produção das famílias agricultoras.
Ao encerrar sua participação, Adriana reforçou que a luta agora é garantir que essas políticas cheguem efetivamente às agricultoras familiares e contribuam para fortalecer práticas que já fazem parte da história da agricultura familiar.
“Vamos continuar lutando para que essas políticas cheguem à vida de cada agricultor e agricultora. Viva a agricultura familiar, viva os quintais produtivos e viva o nosso movimento sindical. A Marcha das Margaridas segue transformando a vida de quem vive e trabalha na roça.”
Valorizar a produção também passa pela comunicação

Encerrando a programação, a comunicadora popular e documentarista Shaynna Pidori, da da Comunicação da Fetape, conduziu a apresentação “Quem semeia comunicação colhe mais valor”, destacando a comunicação como uma ferramenta estratégica para fortalecer a agricultura familiar, os sindicatos, as associações e as iniciativas desenvolvidas pelo movimento sindical, como o Projeto de Desenvolvimento Solidário (PADRS). A atividade abordou como a comunicação, tanto nos meios digitais quanto nos materiais impressos e nas ações presenciais, contribui para agregar valor aos produtos, às experiências e ao trabalho desenvolvido nos territórios. Também reforçou a importância do planejamento da comunicação, da produção contínua de conteúdos e da divulgação das ações realizadas, fortalecendo a identidade da agricultura familiar e contribuindo para enfrentar narrativas que invisibilizam ou desvalorizam o trabalho das agricultoras e dos agricultores familiares.
Imagens e reel: John Lira
Fonte: Shaynna Pidori
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