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Fetape reúne 300 lideranças para debater papel da agricultura familiar diante das mudanças climáticas
As mudanças climáticas já estão afetando a produção de alimentos, a disponibilidade de água e a vida das famílias agricultoras em Pernambuco. Diante desse cenário, a Fetape reuniu, nesta quarta-feira (2), cerca de 300 lideranças sindicais e comunitárias, integrantes da Diretoria da Federação, assessoria militante e representantes de diferentes territórios para o Seminário Estadual “O Papel da Agricultura Familiar em Meio às Mudanças Climáticas”, realizado em Gravatá, no Polo Sindical do Agreste Central. O deputado estadual Doriel Barros também participou da atividade.

O Seminário marcou a culminância do projeto “Toda vez que eu dou um passo o mundo sai do lugar – o protagonismo da Agricultura Familiar no enfrentamento às mudanças climáticas”, iniciativa que colocou no centro do debate as experiências de agricultores e agricultoras familiares que convivem com os efeitos da crise climática e, ao mesmo tempo, constroem alternativas sustentáveis em seus territórios.
A diretora de Política para o Meio Ambiente da Fetape, Ivanice Melo, explicou que o projeto realizou o mapeamento de 50 experiências da agricultura familiar na Zona da Mata, Agreste e Sertão, buscando identificar percepções sobre as mudanças climáticas, impactos sobre a produção e estratégias de adaptação desenvolvidas pelas famílias.

Os resultados mostram que a crise climática já faz parte do cotidiano no campo. Entre as pessoas entrevistadas, 98% afirmaram perceber mudanças significativas no clima, principalmente ondas de calor, períodos de seca e chuvas intensas. Para 92%, essas alterações estão relacionadas às ações humanas. O mesmo percentual relatou perdas nas colheitas, enquanto 80% disseram se sentir vulneráveis ou extremamente vulneráveis diante das mudanças climáticas.

Mesmo nesse cenário, a agricultura familiar vem construindo respostas. Em 88% das experiências mapeadas são adotadas práticas sustentáveis, como manejo e conservação do solo e da água, sistemas agroflorestais, utilização de sementes resistentes, irrigação eficiente, adubação orgânica, economia de água e energia, redução do uso de agrotóxicos e reciclagem.

O levantamento também evidenciou desafios estruturais. Entre as principais demandas estão a ampliação de políticas públicas específicas, o acesso à assistência técnica, ao crédito rural e a mecanismos de seguro acessíveis.

Agroecologia como resposta
Pela manhã, o Seminário contou com a exposição dialogada “O protagonismo da Agricultura Familiar e da transição agroecológica na mitigação da crise climática”, conduzida por Aniérica Almeida, do Centro Sabiá.

“A mudança climática não afeta de forma igual. Quem paga a conta é quem menos polui ou desmata. Esse debate não é só do meio ambiente. Fazer agroecologia é fazer como já fazíamos, só que de forma planejada. A nossa lógica muda, é pensar diferente”, afirmou.
A discussão destacou a agroecologia como uma estratégia de adaptação que envolve não apenas técnicas de produção, mas também outra relação com a terra, a água, as sementes e os bens naturais.
No período da tarde, o professor Paulo Pedro de Carvalho conduziu a exposição “A transição energética justa e solidária, El Niño e os impactos na Agricultura Familiar”. Entre os principais efeitos apontados estão a escassez de água e alimentos para pessoas e animais, a irregularidade das chuvas, as secas, as altas temperaturas, a baixa umidade do ar, o aumento do preço dos alimentos e as ameaças à saúde humana e animal.

Como medidas urgentes, foram destacadas o fortalecimento da convivência com o Semiárido, a formação de estoques e distribuição de alimentos, a ampliação dos sistemas de abastecimento de água, o acesso ao financiamento por meio do Plano Safra e uma Assistência Técnica e Extensão Rural (ATER) adequada e orientada pela agroecologia.
Agricultura familiar no centro das soluções
As discussões reforçaram que agricultores e agricultoras familiares não devem ser vistos apenas como os mais atingidos pela crise climática, mas também como sujeitos fundamentais na construção de soluções.
Ao mapear experiências, promover o intercâmbio entre os territórios e articular esse conhecimento com o debate sobre políticas públicas, a Fetape reafirma que a defesa do meio ambiente está diretamente ligada à defesa da agricultura familiar.
Fortalecer quem produz alimentos, preserva a água, o solo, as sementes e a biodiversidade é também fortalecer a capacidade dos territórios de enfrentar os efeitos das mudanças climáticas.

Durante o Seminário, também foi lançada a cartilha “Desertificação e Justiça Climática”, uma realização do Centro Sabiá. A publicação reúne informações e reflexões sobre os impactos da desertificação e das mudanças climáticas nos territórios, contribuindo para ampliar o debate sobre justiça climática e sobre a necessidade de fortalecer estratégias de convivência, adaptação e proteção da agricultura familiar diante do agravamento da crise ambiental.
Foto: John Lira e Shaynna Pidori
Fonte: Shaynna Pidori